Publicado por: marcospauloteixeira | Dezembro 13, 2008

A Igreja e a escravidão no Brasil

Por Dom Estêvão Bettencourt
l. O Índio

Em síntese: O presente artigo expõe sumariamente o histórico da escravatura desde os tempos pré-cristãs até a época contemporânea. A seguir, explana as razões pelas quais a escravatura pôde parecer legítima não só aos povos anteriores a Cristo, mas também aos povos cristãos. Por último, analisa-se a posição da Igreja frente à escravização dos índios no Brasil; documentos papais e gestos de bispos e sacerdotes jesuítas são citados a fim de evidenciar o interesse da Igreja no tocante às populações aborígenes (na medida em que esse respeito podia ser entendido dentro dos parâmetros culturais dos séculos XVI-XVIII).

Aproximando-se o 500º aniversário da descoberta do Brasil vem-se comentando em publicações diversas o papel da Igreja Católica frente à escravatura de índios e negros no Brasil. Há quem acuse a Igreja de inércia e conivência no caso; terá mesmo contribuído para agravar a sorte dos escravos. Estes lances da imprensa recente têm levado historiadores católicos à pesquisa de fontes e documentos do passado a fim de averiguarem a realidade dos fatos. Nas páginas seguintes, proporemos: 1) breve histórico do escravagismo, 2) reflexões sobre o tema, 3) dados concretos que ilustram a atitude da Igreja perante o escravismo indígena. Em próximo artigo de PR voltar-nos-emos para a Igreja e a escravatura negra.

1. Traços históricos

A escravidão é fenômeno, infelizmente, quase tão antigo quanto o gênero humano. Estava associada às guerras. Com efeito, o guerreiro vencido era tornado propriedade do vencedor. Também se prendia à condição de insolvência; quem não pudesse pagar as suas dívidas, vendia a sua pessoa ou os seus filhos e familiares ao respectivo credor. Na Grécia praticava-se o rapto, especialmente de crianças: havia homens e mulheres especializados nesta tarefa, que eles executavam principalmente nos lugares de grande afluência: feiras, festas, etc. As crianças expostas ou abandonadas pelos pais podiam ser recolhidas como escravos. No período áureo de Atenas, havia na Grécia 15% de homens livres e 85% de escravos.

Na Mesopotâmia havia escravos de certo nível cultural (eram prisioneiros de guerra!): assim no novo Império babilônico (séculos VII-VI a.C.) encontravam-se escravos dados aos negócios em mercados, bancos, sítios, em nome do seu senhor ou por conta própria,… escravos que chegavam a ter escravos a seu serviço.

No Império Romano, os escravos, além de executar trabalhos domésticos, também podiam desempenhar funções administrativas e burocráticas, assimiladas àqueles por implicarem dependência das ordens de outrem. Entre os Secretários de Estado podia haver escravos – o que muito desagradava à aristocracia senatorial.

Certos proprietários de escravos cediam-nos em aluguel; neste caso ao escravo podia tocar uma parte da renda que cabia ao patrão. A alguns escravos era permitido trabalhar por conta própria, pagando ao patrão uma parte de seus emolumentos. Desta maneira conseguiam juntar um pecúlio, mediante o qual compravam oportunamente a sua liberdade.

Nos séculos ll – l a.C. em Roma a escravatura atingiu o auge. Os escravos, numerosos e baratos, eram utilizados nos grandes latifúndios em trabalhos agrícolas. Nesse período verificam-se as revoltas de escravos: na Sicília em 135-131 a.C. e 104-100 a.C., em Espártaco em 73-71 a.C.

Em suma, pode-se dizer que a agricultura e a indústria, o comércio, a construção civil e outras atividades da civilização antiga estavam estritamente na dependência da escravatura; sem esta, nem a vida pública nem a doméstica se sustentariam no Império Romano; pode-se dizer que a sociedade romana se baseava sobre o trabalho escravo.

Este fato explica que o Cristianismo, embora apregoasse a igualdade de todos os homens (cf. Gl 3, 28; Rm 10, 12; Cl 3, 11; 1Cor 12, 13), não tenha podido abolir imediatamente a escravatura no Império Romano. De resto, a própria Bíblia no Antigo Testamento reconhecia a escravidão de estrangeiros (cf. Lv 25, 44-55); este procedente bíblico, associado aos costumes romanos, constituía um legado de peso para os cristãos; este legado, que vinha a ser um traço da cultura da época, era um referencial que se impunha a todo judeu e todo cristão do Império Romano. O próprio Apóstolo São Paulo dava instruções a senhores e escravos a fim de que convivessem em harmonia (cf. Ef 6, 5-9; Cl 3, 22-41; 1Cor 7, 21-23; Tt 2, 9s); o escravo Onésimo, fugitivo e depois batizado por São Paulo, foi devolvido pelo Apóstolo a seu patrão Filemon com uma carta, que pedia ao amo cristão um tratamento fraterno para o escravo cristão (Fm).

Na Idade Média, a antiga escravidão cruel e desumana cede, em parte, a uma instituição muito mais branda, que foi a dos servos da gleba; estes se obrigavam a fixar-se no território do senhor feudal para o qual trabalhavam, mas recebiam em troca tutela e abrigo contra invasores piratas, guerreiros…; isto redundava em benefício do pequeno agricultor, que não teria possibilidade de sobreviver de outra maneira; grande parte dos escravos assim transformaram-se em colonos – o que bem pode ser atribuído, entre outros fatores, à influência humanitária do Cristianismo.

Aliás, o Concílio de Nicéia l (325) dá-nos notícia de que escravos haviam sido admitidos ao sacerdócio. O Papa S. Calisto, por exemplo, era um escravo liberto.

Os medievais, contudo, continuavam a fazer, de seus prisioneiros de guerra, escravos. Precisamente no século IX surgiu no latim medieval a palavra sclavu, outra forma de slavus, que se tornou esclave (escravo) no francês do século XIII. Isto se explica pelo fato de que as populações eslavas dos Bálcãs forneciam o principal contingente dos escravos do Ocidente.

Nos séculos XIII-XIV o tráfico de escravos aumentou notavelmente nos países mediterrâneos, preparando a época de intensa escravidão praticada pelos povos colonizadores da América a partir do século XVI. Aliás, na península ibérica as guerras de reconquista, movidas contra os árabes ocupantes da península, ocasionaram a freqüente utilização de muçulmanos capturados em guerra como escravos. A partir de 1444 os portugueses adquiriram diretamente escravos negros do Sudão (África).

A época moderna se abre com a descoberta de novas terras no Oriente e no Ocidente. A fim de trabalhar no continente americano, os colonos portugueses começaram por valer-se dos indígenas. Estes, porém, mostraram-se pouco dóceis, muito dados à fuga e propensos a moléstias transmitidas pelo europeu ou contraídas por efeito do pesado trabalho a que eram submetidos. Esboçaram-se então os primeiros conflitos entre os colonos, desejosos de mão-de-obra, e os missionários, que se opunham à escravização dos aborígenes ou, ao menos, propugnavam tratamento mais brando.

O bispo de Chiapas, Frei Bartolomeu de las Casas (1474-1566), levantou-se em defesa dos índios e sugeriu que se aproveitassem negros já reduzidos à escravidão; aliás, isto já vinha sendo praticado na América Central em pequena escala. Note-se, de resto, que entre os africanos mesmos era, não raro, usual a escravidão, se bem que limitada quase exclusivamente aos trabalhos domésticos.

O apogeu do tráfico de escravos ocorreu, na América em geral, entre 1750 e 1790; neste período contam-se cerca de 82 mil escravos importados por ano, dos quais 35 mil por ingleses, 24 mil por franceses, 18 mil por portugueses, 4 mil por holandeses e mil por dinamarqueses. Foi também no século XVIII que teve início o movimento abolicionista; o Reino Unido da Grã-Bretanha, país que mais praticara o tráfico de escravos, foi também o que mais se empenhou pela sua abolição. Esta foi ocorrendo aos poucos nos diversos países da América (no Brasil, entre 1883 e 1888). Contudo entre certos povos a escravidão perdura até o século XX; somente em 1962 foi oficialmente abolida na Arábia Saudita. Um relatório apresentado em 1955 em sessão da ONU asseverava a existência de indícios de escravidão e práticas semelhantes ainda em determinadas regiões, como a península arábica, o Sudeste asiático, a África e a América do Sul! Recentemente espalharam-se notícias de que no Sudão (África) tem plena vigência a escravatura.

Estes traços históricos foram aqui recordados para ilustrar quão arraigado esteve, e está, o fenômeno da escravatura na mente dos homens através dos séculos. Passemos agora a uma reflexão sobre os fatos.

2. Refletindo…

Quem olha hoje para o fenômeno da escravatura na história do Brasil (para não dizer: … na história universal), não pode deixar de experimentar uma atitude de indignação e repulsa. – Na verdade, é preciso reconhecer abusos e crimes cometidos contra a pessoa humana na história da escravidão; houve maldade, porque todo homem está sujeito a cair em erros. Todavia não basta tal julgamento como se abarcasse toda a realidade do passado escravagista. Se o observador contemporâneo não quer cometer injustiça, não pode simplesmente condenar todos os antepassados a partir de premissas que são claras em nossos dias, mas não eram familiares aos antigos; deve, antes, procurar entender os fatos pretéritos dentro dos referenciais de que dispunham os antepassados.

Por conseguinte, mereçam ponderação os seguintes dados:

1) Os antigos, os medievais e os modernos até época recente julgavam freqüentemente que os negros e os índios não eram plenamente seres humanos; por conseguinte, não gozavam dos mesmos direitos que os homens brancos. Esta concepção, sustentada de boa fé, atenuava a culpabilidade dos escravagistas.

2) Acontece outrossim que muitos dos escravos eram pessoas que teriam sido condenadas à morte por seus próprios compatriotas e que, compradas na qualidade de escravos, escapavam à morte cruel. Os colonos os resgatavam, julgando praticar obra de misericórdia ao poupá-los de serem pasto de festins canibalescos. Alguns capturavam os índios, alegando que eram pagãos e, por isto, era um benefício levá-los para junto das povoações dos cristãos, onde poderiam aprender a mensagem da fé e ser batizados¹. – Hoje diríamos que o amor cristão mandava pôr em liberdade os escravos comprados, em vez de os obrigar à vida escrava. Todavia na antigüidade este gesto ulterior não passava facilmente pela mente de um cidadão, vistas as ponderações anteriores e dado que toda a organização da sociedade dependia da mão-de-obra escrava.

3) Mais: durante séculos homens e mulheres, hoje universalmente reconhecidos como heróicos e cheios de generosidade, conviveram com o fato da escravatura sem que lhes ocorresse a idéia de mover uma revolução, violenta ou não, contra a mesma. Pode-se começara enumeração por S. Paulo Apóstolo: este, embora tenha professado os princípios que logicamente levariam à extinção da escravatura, não viu em sua época as condições para propugnar explicitamente tal conseqüência. O mesmo aconteceu com S. Agostinho (+ 430), S. Tomás de Aquino (+ 1274), S. Francisco de Assis (+ 1226), S. Teresa de Ávila (+ 1582) … Em sua consciência subjetiva não chegavam a ver na escravatura um mal a ser incondicionalmente combatido como hoje é combatido.

4) Muitos dos que criticam o passado, detém sua atenção apenas sobre os traços sombrios ou negativos do mesmo; baseados em considerações unilaterais, condenam as gerações pretéritas. Ora é preciso pôr em relevo a verdade na sua íntegra; esta apresenta, além de elementos sinistros, atitudes nobres dos homens e mulheres do passado. Nem mesmo a sociedade que hoje censura os antenatos, está isenta de censuras: ela traz em seu bojo diversos males, como o consumismo, ou a cobiça do lucro, do bem-estar, que colocam o dinheiro acima do próprio homem, o desprezo da pessoa e a violação dos direitos alheios, o descaso da vida humana desde o seio materno até a idade avançada, o comércio de tóxicos, a poluição da natureza, do meio-ambiente, diversas formas de massificação devidas, em grande parte, aos meios de comunicação social e, ainda, o elevado grau de pornografia sórdida ou meramente instintiva e irracional. Talvez muitos convivam com esses males sem observar que poderiam ser removidos ou que haveria expressões mais autênticas da dignidade humana; até que ponto são tais pessoas subjetivamente culpadas?

Dito isto, importa que nos voltemos para certos fatos que evidenciam a atitude da Igreja diante da escravatura na história do Brasil.

3. Atitude da Igreja

Distinguindo a escravidão do indígena e a do negro, neste artigo abordaremos apenas a do indígena; ficará a do negro para o próximo número de PR.

3.1. As incursões dos senhores

Os precedentes históricos ou o hábito inveterado de recorrer a escravos levou os portugueses a procurar servir-se do índio para prover aos trabalhos braçais de que precisavam¹. As tribos que se chocavam em guerras, prontificavam-se a vender aos brancos os seus prisioneiros em troca de quinquilharias e bugigangas. Caso isto não ocorresse, condenavam-nos a morrer para servir à prática da antropofagia em banquetes canibalescos.

Não contentes com isto, os brancos faziam incursões entre os índios, isto é, assalteavam-nos ou salteavam-nos a fim de os capturar como escravos que trabalhariam nas fazendas.

Merece especial atenção o ocorrido com os índios Caetés. Mataram e devoraram o bispo D. Pedro Fernandes, três cônegos e cerca de cem outras pessoas, vítimas de naufrágio. E vangloriavam-se disto, proclamando que haviam matado o chefe religioso dos brancos; ora tal atitude foi tomada como ignomínia ao nome cristão. Em conseqüência, o Governador Mem de Sá (1557-1572) mandou contra os Caetés uma expedição, determinando que fossem reduzidos à escravidão em castigo modelar. Este fato desencadeou, da parte dos colonos, outros assaltos a índios de tribos diversas, como se todos fossem réus do mesmo crime – o que mereceu imediata reprovação do Governador.

Diante dos fatos, registraram-se protestos da parte das autoridades eclesiásticas e de autoridades civis.

3.2. As medidas tomadas

Sabe-se que no início do século XVI o dominicano Frei Domingos de Minaja viajou da América Espanhola a Roma, a fim de relatar ao Papa Paulo III os abusos ocorrentes com relação aos índios. Em conseqüência, o Pontífice escreveu a Bula Veritas Ipsa de 2/6/1537. Nesta O Pontífice expõe o equívoco subjacente à instituição da escravatura:

“O comum inimigo do gênero humano, que sempre se opõe às boas obras para que pareçam, inventou um modo, nunca dantes ouvido, para estorvar que a Palavra de Deus não se pregasse às gentes, nem elas se salvassem.

Para isso moveu alguns ministros seus que, desejosos de satisfação às suas cobiças, presumam afirmar a cada passo que os índios das partes ocidentais e meridionais e as mais gentes que nestes nossos tempos têm chegado à nossa notícia, hão de ser tratados e reduzidos a nosso serviço como animais brutos, a título de que são inábeis para a Fé católica; e, com pretexto de que são incapazes de recebê-la, os põem em dura servidão em que têm suas bestas, apenas é tão grande como aquela com que afligem a esta gente”.

Neste texto merece atenção especial a menção de índios e das mais gentes, que são os africanos. A uns e outros Paulo III quer defender. Por isto acrescenta:

“Pelo teor das presentes determinamos e declaramos que os ditos índios e todas as mais gentes que daqui em diante vierem à notícia dos cristãos, ainda que estejam fora da fé cristã, não estão privados, nem devem sê-lo, de sua liberdade, nem do domínio de seus bens, e não devem ser reduzidos à servidão”.

As determinações da Bula lograram efeitos positivos, mormente porque observadas pelos jesuítas, como atesta o ouvidor Pero Borges a El-Rey:

“Agora que, a requerimento destes padres apóstolos (os jesuítas) que cá andam, homens a quem não falta nenhuma virtude, eu mando pôr em liberdade os gentios que foram salteados, e não tomados em guerra, estão os gentios contentes e parece que lhes vai a coisa de verdade e mais porque vêem que se lhes faz justiça, e a fazem a eles, quando alguns cristãos os agravam; e parece-me que será causa para não haver aí guerras” (citado por H. Wetzel, A escravatura e os jesuítas no Brasil colonial, em “O Arquidicocesano”, 7/01/1979, p. 3).

Na aldeia de São Paulo da Bahia, os moradores brancos perturbavam os índios, pois, como escreve o Pe. Nóbrega a Tomé de Souza, “tomavam-lhes as suas terras e roças em que sempre estiveram de posse e nuca fizeram por donde as perdessem, antes na guerra passada estes ajudaram aos cristãos contra os seus próprios… E porque nisto o Governador e eu estorvamos esta tirania, contra mim conceberam má vontade”. – Ora a rainha Dª Catarina deu razão ao Pe. Nóbrega, escrevendo ao Governador Mem de Sá:

“Encomendo-vos consulteis estas coisas (da distribuição de terras) com os padres da Companhia, que nessa Capitania estiverem, e façais isso de maneira que vos parecer que convém ao bem e aumento da conversão e conservação dos ditos gentios, e não seja escândalo a outras partes e a todos se ouçam de justiça e igualdade”. O Governador deveria até devolver as terras que lhes foram tomadas e dadas a outrem sem justa causa, o que “seria grã consolação e quietação” (citado por H. Wetzel, ib.).

A 30 de julho de 1609 El-Rey promulgou nova lei, que abolia por completo a escravidão indígena:

“Declaro todos os gentios daquelas partes do Brasil por livres, conforme o direito e seu nascimento natural, assim os que já foram batizados e reduzidos a nossa santa fé católica, como os que ainda servirem como gentios, conforme a pessoas livres como são”.

Aos 22/4/1639 o Papa Urbano VIII publicou o Breve “Commissum Nobis” incutindo a liberdade dos índios da América. Este documento chegou ao Rio por meio do Pe. Francisco Dias, que iria até Buenos Aires com mais trinta companheiros. Trazia também uma nova lei de Sua Majestade, que mandava dar a liberdade a todos os cativos sob pena de castigos do Santo Ofício e de confiscação dos bens. – No seu Breve, o Papa mandava, sob pena de excomunhão reservada ao Pontífice, que ninguém prendesse, vendesse, trocasse, doasse ou tratasse como cativos os índios da terra. Dispunha outrossim que a ninguém seria lícito ensinar ou apregoar o aprisionamento dos mesmos.

Sabedores disto, os oficiais da Câmara e alguns homens do povo reuniram uma Junta no Convento do Carmo do Rio de Janeiro para tratar do assunto. No dia seguinte, o Reitor do Colégio dos jesuítas publicou o Breve pontifício. Insurgiram-se então “alguns homens da Câmara e do povo, e de assuada com motim formado vieram ao Colégio e, arrombando-lhe com machados as portas, entraram dentro com intento, como clamavam ou botarem fora da terra; e o fizeram se não acudira o Governo a os moderar”.

Os amotinados escreveram um libelo inflamado contra os padres, que se viram forçados a recorrer a Lisboa para se defender das acusações.

Na Capitania de São Vicente o mesmo Breve Pontifício também provocou tumultos. Na Casa do Conselho de São Vicente reuniram-se dez procuradores das vilas daquela Capitania em sessão que durou três dias. “Concluíram que botassem fora de toda aquela Capitania aos padres da Companhia, porque, vendo-se os padres da Companhia avexados e oprimidos com desejo de tornarem às suas casas e Colégio, haveriam de Sua Santidade a suspensão da Bula, e de Sua Santidade e Majestade licença para os poderem ter como cativos, e liberdade de consciência para poderem fazer suas entradas no sertão”.

Na sexta-feira 13 de julho de 1640, às 2 horas da madrugada mandaram os membros da Câmara de São Paulo tocar os sinos para reunir o povo da vila. O procurador João Fernandes Saavedra leu a sentença da Junta de São Paulo que desterrava os padres da Companhia; estes foram imediatamente expulsos aos empurrões pelo povo. Os padres dirigiram-se para Santos, onde chegaram no dia seguinte. Somente em 1643, três anos mais tarde, voltaram para São Paulo.

Em Santos houve semelhantes tumultos por causa da publicação do Breve sustentado pelos jesuítas. Estes foram expulsos da vila no dia 3 de agosto de 1640. Dois anos mais tarde, em 1642, voltaram para lá, por ordem do rei D. João IV.

No Maranhão registraram-se também motins contra a determinação pontifícia. Em 1684, a insurreição era chefiada por Lisboa Manuel Bequimão. O povo dirigiu-se ao Colégio dos jesuítas, intimando-os a sair do Maranhão por serem nocivos à terra em virtude da proteção que dispensavam aos índios. Redigiram um protesto com cerimônias judiciais, cuja substância brevemente resumida é a seguinte: que o povo do Maranhão os lançava foram não por escândalo algum em seu comportamento e vida religiosa, nem mesmo por faltarem ao cuidado da salvação das almas. Que a razão, motivo e principal fundamento desta resolução era “porque os padres tinham a administração temporal dos índios, no que experimentava aquele povo intoleráveis apertos. Que lhes pediam e intimavam juntamente não pretendessem jamais voltar para a terra, que de nenhum modo os queria, e de que já haviam sido lançados duas vezes e intentados lançar outra”. – Os jesuítas foram embarcados em duas naus: a primeira, transportando quinze Religiosos, chegou a Pernambuco aos 18/5/1684; a outra se achavam doze, ficou detida no Ceará com o mastro fendido. – No ano seguinte, 1685, o novo Governador Gomes Freire de Andrade trazia instruções da Corte para restabelecer a ordem antes vigente: os jesuítas puderam então voltar ao Maranhão em 23/9/1685.

Voltando ao século XVI… Sabe-se que o segundo bispo do Brasil, D. Pedro Leitão (1559-1573), assinou aos 30/7/1566 na Bahia com o Governador Mem de Sá (1557-1572) e o Ouvidor Dr. Brás Fragoso uma Junta em defesa dos índios; defendia-os contra os abusos dos brancos e dava maior apoio aos aldeamentos instaurados pelos jesuítas. O Pe. Anchieta elogiou o bispo pelo zelo em prol da liberdade dos aborígenes. Outro jesuíta escreveu: “O Bispo prega e repreende acremente aos que maltratam e fazem desaforos aos índios” (dados extraídos do livro de A. Rubert, A Igreja no Brasil, vol. l, p. 288).

Também o primeiro prelado do Rio de Janeiro, Padre Dr. Bartolomeu Simões Pereira (1578-1603), foi rígido defensor dos índios, sempre contrário à escravidão dos mesmos; por isto sofreu graves dissabores. O quarto prelado do Rio de Janeiro, O Pe. Dr. Lourenço de Mendonça, dizia que “mandou guardar as Constituições Eclesiásticas dos antecessores… que sempre se opuseram a estas tão iníquas vendas (de escravos)” (Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, L. 219, dc. 17).

As autoridades governamentais da colônia também se interessaram pela defesa dos índios. Assim Mem de Sá, desejoso de garantir a liberdade dos aborígenes, deu a estes terras para o seu cultivo; os jesuítas então se empenharam por que fossem boas e férteis. Por isto entraram em conflito com os brancos, que reclamavam para si as melhores terras. Em conseqüência, foram levadas a Portugal queixas contra os jesuítas. Em 1559 escrevia o Padre Provincial de Lisboa, Manuel de Torres, ao Pe. Nóbrega, exortando-o a procurar a amizade de todos e ser mensageiro de paz.

O monarca determinava ainda que o trabalho não fosse forçado e que o salário fosse pago como a todas as demais pessoas livres. Mandavam outrossim que todos os índios escravizados fossem postos em liberdade.

Os moradores da terra insurgiram-se contra tais injunções. Eis o que relata o Pe. Provincial Henrique Gomes ao Pe. Geral dos jesuítas:

No dia 28 de junho de 1610, na Bahia, “convocaram o povo à Câmara, onde sendo todos juntos, tratando-se a matéria, houve vários pareceres e entre eles alguns que nos embarcassem a todos para Portugal, por inimigos do bem comum e da república… Foi tal o motim do povo que o Procurador dos índios correu o risco de ser morto só por dizer nesta ocasião que se informassem da verdade e achariam que os padres não tinham culpa alguma” (H. Wetzel, A escravatura e os jesuítas no Brasil colonial, em “O Arquidiocesano”, 28/01/79, p. 3).

Neste episódio verifica-se que os jesuítas sofreram também por prestarem obediência às ordens do rei que defendiam os índios.

4. Conclusão

Então assim expostos alguns dos fatos históricos mais importantes para se reconstituir o papel desempenhado pela hierarquia da Igreja frente à escravidão dos índios. Houve empenho por respeitar tal população – o que exigiu sacrifícios da parte de clérigos. Verdade é que esse esforço não se voltou contra a escravatura como tal; nem se deve crer que os clérigos não tiveram escravos a serviço das suas obras; não lhes passava pela mente a idéia de abolir por completo o trabalho escravo, pois redundaria em colapso tanto da vida civil e econômica da sociedade como das atividades humanitárias e evangelizadoras da Igreja.

Importa, porém, registrar que, dentro das categorias de pensamento e cultura dos séculos XVI-XVIII, a Igreja opôs resistência à exploração dos indígenas na medida em que esta podia parecer ilegítima a um cristão da época (de consciência bem formada).

A propósito muito nos valemos dos artigos do Pe. Herbert Wetzel S. J. publicados sobre “A escravatura e os jesuítas no período colonial”, em “O Arquidiocesano” de Mariana (MG), ao 7/01, 14/01, 21/01, 28/01, 4/02, 11/02, 18/02/1979. Deste impressos foram extraídas as citações aqui transcritas (desde que não seja ocasionalmente indicada fonte própria).

Ver ainda:

HAUBERT, MAXIME, L’Eglise et la défense des “sauvages”: le Père Antonio Vieira au Brésil. Bruxelles 1964.

HOORNAERT, EDUARDO, Teologia e ação pastoral em Antônio Vieira: 1652-1661, em “História da Teologia na América Latina”, São Paulo 1981.

LAS CASAS, BARTOLOMEU DE, Historia de las Indias, em “Biblioteca de Autores Españoles”. XCVI. Madrid 1961.

LEITE, SDERAFIM, História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro 1938-1950 (10 volumes).

VINCENT, ANDRÉ, L’intuition fondamentale de Las Casas et la doctrine de Saint Thomas, em “Nouvelle Revue Théologique” 1972, 944-952.

¹ É óbvio que hoje nenhum cristão justificaria tal procedimento nem reconheceria tais alegações.

¹ “Rara seria então a casa nobre de Portugal onde não houvesse escravos mouros apreendidos nas guerras de Marrocos; e desde o tempo do infante, como na antiga Roma, os negros da África eram objeto de comércio. No censo de Lisboa em 1551 os escravos eram 9,95% da população” (Herbert Wetzel, A escravatura e os Jesuítas no Brasil colonial, em “O Arquidiocesano”, 7/01/1979, p. 3).


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