Publicado por: marcospauloteixeira | Dezembro 13, 2008

DEVE-SE BATIZAR CRIANÇAS?

xxNão é raro encontrar pessoas afirmando que não é preciso batizar crianças porque o Batismo só deve ser dado aquele que crê, e a criança ainda não tem consciência da fé. Um dia desses encontrei no youtube um vídeo falando sobre isso. O vídeo dizia que não se pode impor um partido político a uma criança, já que esta não tem condições de saber se o partido político é bom ou não. A mesma alusão fizeram com o Batismo praticado na Igreja Católica, alegando que o Batismo é uma imposição.

Agora vamos refletir se é preciso ou não batizar as crianças.

Por que Jesus criou o batismo? Ora, a resposta deve ser porque o ser humano perdeu algo e que precisa recuperá-lo.

E o que nós perdemos?
Quando Deus criou o homem, o colocou num jardim ameno ou paraíso (cf. Gn 2,8). Os traços atribuídos a esse jardim não hão de ser entendidos ao pé da letra, mas significam que o homem entrou num estado de bonança, decorrente de sua comunhão com Deus. Mais precisamente: o Criador quis logo elevar o homem a uma ordem de coisas que ultrapassava as exigências da natureza humana. Essa ordem de coisas é também chamada “justiça (ou santidade) original”; compreendia os seguintes dons:

1) a filiação divina ou graça santificante, mediante a qual o homem era chamado a participar da vida e da felicidade do próprio Deus. Este dom é dito “sobrenatural”, porque ultrapassa as exigências de qualquer criatura.

2) Os dons preternaturais, que ampliavam ou prolongavam as perfeições da natureza. Tais eram:

a) a imortalidade ou o poder não morrer, pois Gn 2,7; 3,3; Sb 2,14; Rm 5,12, a morte é apresentada como conseqüência do pecado. Isto significa que, antes do pecado, o homem não morreria dolorosa e violentamente como hoje morre;

b) a integridade ou a imunidade de concupiscência desregrada, visto que os primeiros pais antes do pecado não se envergonhavam de sua nudez (Cf. Gn 2,25; 3,7-11); seus instintos e afetos estavam em consonância com a razão e a fé; não havia neles tendências contraditórias;

c) a impassibilidade ou ausência de sofrimentos, pois estes decorrem da sentença condenatória de Gn 3,16; além do quê, são precursores naturais da morte violenta que, de algum modo, afeta todo homem;

d) a ciência moral infusa, que tornava os primeiros homens aptos a assumir suas responsabilidades diante de Deus.

Vale lembrar que os dons da justiça original não implicam que os primeiros homens fossem formosos. Terão sido dons meramente interiores, compatíveis com a configuração rude e primitiva que as ciências naturais atribuem aos primeiros seres humanos.

O pecado acarretou para os primeiros pais a perda da justiça original, ou seja, a filiação divina e dos dons que a acompanhavam. O texto sagrado (Gn 3,7) diz que, após o pecado, “abriram-se-lhes os olhos e reconheceram que estavam nus”. Essa nudez é, antes do mais, o despojamento interior ou a perda dos dons originais; a concupiscência ou a desordem das paixões se manifestou.

Não há dúvida, a diversidade de tendências dentro do homem é algo decorrente da própria natureza humana (sensível e espiritual, ao mesmo tempo); todavia ela estaria superada se o homem não tivesse pecado em suas origens; ela hoje existe em conseqüência do pecado.

O pecado acarretou também a desarmonia no mundo irracional que cerca o homem; este já não é o ponto de convergência das criaturas inferiores; ao contrário, estas muitas vezes prejudicam o homem e lhe negam a sua serventia; tendo-se rebelado contra Deus, o homem sente contra si a rebelião das criaturas inferiores.

O pecado dos primeiros pais tem repercussão nos seus descendentes. Todavia o pecado original não é culpa pessoal nem falta voluntária; consiste na ausência dos dosns originais (graça santificante, dons preternaturais) que os primeiros pais deviam ter guardado e transmitido, mas não puderam transmitir porque pecaram. A criatura que hoje nasce, devia nascer com a graça santificante, mas isto não acontece; ela nasce destoando do exemplar ou do modelo que o Senhor lhe tinha assinalado; essa dissonância ( que implica a concupiscência desordenada e a morte) é que se chama, por analogia, “pecado original” nos pequeninos.

Por que Deus quis que a culpa dos primeiros pais assim repercutisse nos seus descendentes? A criança, que não pediu a eventualidade de nascer, muito menos pediu que nascesse com pecado!

Em resposta, diremos: toda criança que vem ao mundo, nasce dentro de contexto social e geográfico, do qual é solidária; assim há crianças que nascem no Brasil, outras na China, outras na Etiópia, outras na Europa; há crianças que nascem no século XX, outras nasceram no século II a.C., outras no século X d.C.; cada uma traz a herança da família, do lugar e da época em que nasce. Essa solidariedade é palpável, também no seguinte caso: imaginemos um pai de família que numa noite perde todos os seus bens numa jogatina de casino; os filhos desse homem não têm culpa, mas hão de carregar as conseqüências (miséria, fome…) decorrentes do desatino de seu pai.

Ora a solidariedade mais fundamental que cada um de nós traz, é a solidariedade com os primeiros pais; se estes perderam os dons originais, nós, sem culpa nossa, somos afetados por essa perda, o que é muito lógico.

Vê-se, pois, que a transmissão do pecado original não se deve a intenção vingativa de Deus, mas é conseqüência da índole mesma da natureza humana.

Por isso tudo que a Igreja, como mãe, batiza os seus filhos já nos primeiros dias de vida na intenção de que a criança volte a filiação divina.

Tem coisas que Deus fez e faz sem perguntar a humanidade. Imagine se Jesus tivesse esperado que os judeus o aceitasse para depois salvar o mundo. Na cruz ele salvou da morte eterna até os que o crucificaram, porque nesse mundo nós não podemos compreender todas as coisas, e Deus sabe dessa nossa limitação.

O Batismo é sacramento necessário à salvação, como ensina o Senhor em Jo 3,5 e Mc 16,16. Por isto dizia Orígenes (+ 250): “A Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de dar o Batismo mesmo às crianças”. No século II S. Irineu (+202) atestava o Batismo das crianças como prática da Igreja. A própria Escritura insinua o Batismo das crianças, quando diz que uma família inteira foi batizada: Lídia com todos os seus (At 16,15); o carcereiro de Filipos e toda a sua casa (At 16,33); Crispo e toda a sua família (At 18,8); Estéfanas e todos os seus (1 Cor 1,16).

Muitos ainda insiste que o Batismo é o sacramento da fé (cf. Mc 16,15; At 8,37; Cl 2,2) e que as crianças não podem se batizar porque não têm fé.

Respondemos que a fé, no caso, é mera disposição, cuja ausência não impede a ação purificadora e santificante do sacramento; este portanto pode ser conferido a sujeitos incapazes de conceber a fé. Santo Agostinho e S. Tomás lembram que a fé da Igreja, no caso, supre a fé dos pequeninos; estes são batizados por extensão da fé da Igreja.

Essa é a fé e a tradição recebida pela Santa mãe Igreja há mais de dois mil anos!

Autor: Marcos Paulo – 19/07/2008


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