Publicado por: marcospauloteixeira | Janeiro 11, 2009

O Dom das línguas

 O DOM DAS LÍNGUAS

Esse texto é um resumo com alguns comentários meus do livro do Prof. Alessandro Lima do site www.veritatis.com.br. O livro está disponível gratuitamente no site e contém 45 páginas. Compilei em 8 páginas alguns dos mais importantes tópicos.

Marcos Paulo

 

É bom que fique claro a diferença entre dons e frutos do Espírito Santo.

Os dons do Espírito Santo são disposições permanentes que tornam o homem dócil para seguir as inspirações divinas. […] Os frutos do Espírito Santo são perfeições plasmadas em nós como primícias da glória eterna.” (CIC 1832)

 

A Igreja, baseada em (Is  11, 1 – 3) ensina que os dons são sete: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus.

 

 A igreja ensina que os dons (graças) dos Espírito Santo se dividem em:

I)             Graças santificante:  este tipo de graça trata-se de uma vida infundida pelo Espírito Santo em nossa alma para santificá-la e é recebida no Batismo.

II)            Graça atual: Intervenções divinas no decorrer da obra de santificação ou na origem da conversão.

III)           Graça Sacramental: Dons próprios dos sacramentos que nos ajuda a colaborar com o crescimento da Igreja.

IV)          Graça especial ou Carisma: É um benefício, um dom gratuito que tem como meta o bem comum da Igreja. Pode ser extraordinário como o dom dos milagres ou das línguas. São dons que acham a serviço da caridade que edifica a Igreja.

Assim, quando Isaías fala de dons este está falando sobre os dons que dizem respeito à graça santificante, dita habitual, que recebemos no batismo e nos demais sacramentos.

 

São Paulo em  1Cor 12 também fala sobre dons. “A respeito dos dons espirituais, irmãos, não quero que vivais na ignorância. Sabeis que, quando éreis pagãos, vos deixáveis levar, conforme vossas tendências, aos ídolos mudos. Por isso, eu vos declaro: ninguém,  falando sob a ação divina, pode dizer: Jesus seja maldito e ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas um só Espírito. Os ministérios são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; aoutro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Mas um e o mesmo Espírito distribui todos estes dons, repartindo a cada um como lhe apraz” (1Cor 12,1-11).

 

 Mas estes dons pertencem a uma categoria diferente daquela contida no livro de Isaías. Esses dons carismáticos dizem respeito à graça especial, que também é chamada de graça pessoal.

 

Os dons carismáticos podem ser ordinários como o exercício dos ministérios no seio da Igreja, por exemplo: acólitos, diáconos, presbíteros e bispos; ou podem ser extraordinários como, por exemplo o dons de milagres e o das línguas.

 

Faremos agora uma análise de diversas passagens bíblicas.

 

E quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e falavam em línguas estranhas e profetizavam” (At 19,6).

 

O Prof. Alessandro Lima em seu livro  fala sobre três linhas de tradução:

 

“1) O texto não qualifica as línguas faladas, isto é, se eram “estranhas” ou “estrangeiras”. Seguem essa linha as seguintes versões bíblicas: Nova Vulgata (NV), Bíblia de Jerusalém (BJ), Bíblia do Peregrino (BP), Bíblia Sagrada da CNBB (BSC), Bíblia Sagrada Vozes (BSV), Bíblia Sagrada de Aparecida (BSA), Bíblia Sagrada Edição Pastoral (BEP), Bíblia

Sagrada Palavra Viva (BPV), Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB), Almeida Revista e Corrigida (ARC), Almeida Corrigida e Fiel (ACF), Almeida Edição Contemporânea (AEC), Nova Versão Internacional (NIV); e Tradução do Novo Mundo (TNM).

 

2) O texto qualifica as línguas como “diversas”, no sentido de vários idiomas humanos. Seguem esta linha a Vulgata de Matos Soares (VMS), Vulgata de Antonio Pereira de Figueiredo (VPF), Vulgata de Dom Vicente (VDV), Bíblia Mensagem de Deus (BMD).

 

3) O texto qualifica as línguas faladas como “estranhas”, no sentido de não conhecida dos homens. Segue essa linha as versões Bíblia Sagrada Ave-Maria (BAM), Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH), Nova Tradução na  Linguagem de Hoje (NTLH).”

 

A maioria do biblicistas consideram as traduções 1 e 2 como as melhores, porém a tradução 2 é considerada mais fidedigna.

 

Logo, estranhos pode facilmente ser traduzido por diversas. Isso pode ser comprovado pela leitura de Ato dos apóstolos.

 

Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Achavam-se então emJerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar na sua própria língua. Profundamente impressionados, manifestavam a sua admiração: Não são, porventura, galileus todos estes que falam?Como então todos nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Partos, medos, elamitas; os que habitam a Macedônia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, a Frígia, a

Panfília, o Egito e as províncias da Líbia próximas a Cirene;peregrinos romanos, judeus ou prosélitos, cretenses e árabes; ouvimo-los publicar em nossas línguas as aravilhas de Deus! Estavam, pois, todos atônitos e, sem saber o que pensar,perguntavam uns aos outros: Que significam estas coisas?” (At 2,1-12).

 

Essa passagem mostra que os estrangeiros podiam entender o que eles (os apóstolos) estavam falando. Aqui não acontece a tradução simultânea. Veja esse comentário de um grande Doutor da Igreja, São Tomás de Aquino:

 

[…] o Senhor deu-lhes o dom de línguas, para que a todos ensinassem, não de modo que falando uma só língua fossem entendidos por todos, como alguns dizem, mas sim, bem literalmente, de maneira que nas línguas dos diversos povos, falassem as de todos. […]

 

Em 1Cor 12, quando São Paulo fala dos dons, ele se refere ao dom das línguas como “variedades de línguas”, no sentido de várias línguas já existentes. Isso aponta que em At  19,6  a palavra “estranhas” tenha o significado de “estrangeira”.

 

Os Santos e Doutores da Igreja sustentaram essa mesma doutrina. Do livro do Pro. Alessandro Lima vou colocar aqui algumas citações dos Santos.

 

Santo Ireneu (séc. II) um dos mais antigos Pais da Igreja sobre o dom de línguas assim ensinou:

 

É este Espírito que Davi pediu para o gênero humano, ao dizer: ‘Confirma-me pelo teu Espírito que dirige’ (cf. Sl 51,14). E ainda este Espírito que Lucas nos diz ter descido, depois da ascensão do Senhor, sobre os discípulos no dia de Pentecostes, com o poder de falar em todas as línguas dos povos e abrir-lhes um novo testamento. Eis por que, na harmonia de todas as línguas, cantavam hinos a Deus, enquanto o Espírito Santo reunia na unidade as raças diferentes e oferecia ao Pai as primícias de todas as nações. Foi por essa razão que o Senhor prometera enviar o Paráclito que nos faria dignos de Deus. Assim como a farinha seca não pode, sem água, tornar-se uma só massa, nem um só pão, também nós não poderíamos tornar um só em Cristo, sem a água que vem do céu.

 

Por isso o Apóstolo [Paulo] diz: Falamos de sabedoria entre os perfeitos, chamando perfeitos os que receberam o Espírito de Deus e que falam todas as línguas graças a este Espírito, como ele fazia e como ainda ouvimos muitos irmãos na Igreja, que possuem o carisma profético e que, pelo Espírito, falam em todas as línguas, revelam as coisas escondidas dos homens para sua utilidade e expõem os mistérios de Deus”.

 

São João Crisóstomo (séc. IV):

 

Ele desceu sobre aqueles que o Senhor Jesus havia reunido porque creram n’Ele. Ele desceu sobre a Igreja. Certamente um dom pessoal,que cada um recebeu em particular, mas porque estavam unidos, emcomunhão – e justamente “no dia de Pentecostes estavam todos reunidos no mesmo lugar” (At 2, 1) – e sofreram uma transformação radical: repentinamente tomaram consciência da Palavra de Deus em seu seio e puseram-se a comunicar em todas as línguas as maravilhas de Deus. Donde o discurso de Pedro anunciando comaudácia a Ressurreição do Crucificado àqueles mesmos que O

crucificaram“.

 

Santo Agostinho (séc. IV-V):

 

Depois de ter passado quarenta dias com seus discípulos, subiu ao céu o Senhor ressuscitado. E no qüinquagésimo dia, que hoje celebramos, enviou o Espírito Santo, como está escrito: De repente,veio do céu um ruído semelhante ao soprar de impetuoso vendaval. E apareceram umas como línguas de fogo, que se distribuíram e foram pousar sobre cada um deles. E começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os impelia a falarem (At 2,2.3.4).

 

Aquele vento purificava os corações da palha da carne. Aquele fogo consumia o fogo da velha concupiscência. Aquelas línguas faladas pelos que estavam repletos do Espírito Santo prefiguravam a futura Igreja, que haveria de estar entre as línguas de todos os povos. De fato, após o dilúvio, a ímpia soberba dos homens construiu uma torre elevada contra o Senhor, e o gênero humano mereceu ser dividido em línguas diversas, começando cada povo a falar sua língua para não ser entendido pelos outros povos. Agora, ao invés, a humilde piedade dos fiéis recolheu a diversidade destas línguas na unidade da Igreja, onde a caridade reuniu aquilo que a discórdia tinha espalhado. E os membros dispersos do corpo humano, como membros de um único corpo, voltam a ser unificados na única cabeça que é Cristo, fundidos na unidade

de seu santo corpo pelo fogo do amor.

 

[…] Vós, porém, irmãos, membros do corpo de Cristo, germes de unidade, filhos da paz, celebrai este dia alegres, celebrai-o seguros. Porque em vós se realiza aquilo que era prefigurado nos dias em que veio o Espírito Santo. Porque, como outrora quem recebia o Espírito Santo, embora fosse um homem só, falava todas as línguas, assim agora fala todas as línguas, através de todos os povos, a própria unidade. Estabelecidos nela, possuis o Espírito Santo, os que não estais separados por nenhum cisma da Igreja de Cristo que fala todas as línguas.”

 

Poderia citar ainda aqui tantos outros santos, mas não convém para não ficar extenso. A lista completa de depoimentos dos Santos pode ser encontrado no livro do Prof. Alessandro Lima.

 

São Tomás de Aquino, cuja doutrina foi recomendada por Papas, deixou o seguinte ensinamento sobre o dom carismático extraordinário das línguas na sua suma Teológica:

 

os primeiros discípulos de Cristo foram escolhidos para percorrerem o mundo pregando a sua fé a todos, como se lê no Evangelho de Mateus: “Ide e ensinai a todos os povos”. Ora, não era conveniente que aqueles que eram enviados para instruir os outros, precisassem ser instruídos por eles sobre a maneira de lhes falar ou de compreender sua linguagem. Sobretudo por que estes enviados eram da mesma nação, da Judéia como havia predito Isaías: Aqueles que sairão impetuosamente de Jacó encheram com sua raça a face da terra. Além disso, os discípulos enviados eram pobres e sem poder; eles não teriam encontrado facilmente, desde o começo,intérpretes fiéis para traduzir suas palavras ou lhes explicar as dos outros, principalmente por terem sido enviados a povos infiéis. Por esta razão, era necessário que Deus lhes viesse em socorro com o dom das línguas, a fim de que, como se havia introduzido a diversidade de línguas, quando os homens começaram a dar-se à idolatria, como se lê no livro de Gênesis, assim se desse o remédio a essa diversidade, quando tivessem que ser convertidos ao culto de um só Deus. […] Uma Glosa de Gregório [Papa] assim comenta: “O Espírito Santo apareceu sobre os discípulos em línguas de fogo e lhes deu o conhecimento de todas as línguas

 

Porquanto o dom de línguas devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para ensinar pelo mundo a fé de Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos anunciassem a palavra de Deus, o Senhor deu-lhes o dom de línguas, para que a todos ensinassem, não de modo que falando uma só língua fossem entendidos por todos, como alguns dizem, mas sim, bem literalmente, de maneira que nas línguas dos diversos povos, falassem as de todos. Pelo qual disse o Apóstolo: Dou graças a Deus porque falo as línguas de todos vós (1Co 14,18). E em Atos 2,4, se disse: Falavam em várias línguas, etc. E na Igreja primitiva muitos alcançaram de Deus este dom. […] Pois os coríntios, que eram de indiscreta curiosidade, preferiam esse dom que o da profecia. E aqui por falar em língua, o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la, esse tal fala em língua.”

 

O Magistério recente da Igreja também ensinou essa mesma doutrina no concílio Vaticano II no decreto Ad Gentes:

 

O Espírito Santo […] no dia de Pentecostes desceu sobre os discípulos para permanecer eternamente com eles; que a Igreja foi publicamente manifestada ante a multidão; que pela pregação se iniciou a difusão do Evangelho entre as nações; que enfim foi prefigurada a união dos povos na catolicidade da fé mediante a Igreja da Nova Aliança que fala todas as línguas, compreende e abraça na caridade todos os idiomas e assim supera a dispersão de Babel”.

 

O dom de línguas no Tanquerey

Por Tanquerey, é conhecido o renomado Compêndio de Teologia Ascética e Mística de Adolph Tanquerey, “riquíssimo em conteúdo e firmíssimo na sua doutrina”. Nele encontramos a seguinte doutrina sobre o dom de línguas:

 

1514. As revelações, de que acabamos de falar, são dadas sobretudo para utilidade pessoal; as graças gratuitamente dadas são no principalmente para a utilidade dos outros. São,efetivamente, dons gratuitos extraordinários e transitórios, conferidos diretamente para bem dos outros, posto que podem indiretamente servir também para santificação pessoal. São Paulo menciona-os com o nome de carismas; na Epístola aos Coríntios distingue nove, que provém todos do mesmo Espírito:

 

1515. […] 8) O dom das línguas, que, em São Paulo, é o dom de orar em língua estranha com certo sentimento de exaltação; segundo os teólogos é o dom de falar várias línguas

 

Primeiro devemos notar que o Tanquerey afirma que os carismas são extraordinários e transitórios, conforme vimos antes através do Catecismo da Igreja. Quando refere-se especificamente sobre o dom de línguas, pontua que no entendimento dos teólogos (conforme vimos na doutrina dos Santos e Doutores da Igreja) o falar língua estranha que se pode entender nos textos paulinos é o falar em várias línguas.

 

Perguntas e Respostas:

 

Objeção 1: Em Marcos 16,17 Jesus diz que os fiéis que receberão o Espírito Santo falarão novas línguas, dando a entender línguas que ainda não são conhecidas pelos homens.

 

Resposta: O texto de Mc 16,17 é: “Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas“. Aqui Nosso Senhor referindo-se a “novas línguas” usa o termo grego kainós glossa, que significa “novo idioma” quanto ao uso e não quanto ao conhecimento no sentido de jamais visto. Ademais, se Cristo estivesse se referindo a línguas não conhecidas na terra, suas palavras estariam em desacordo com o anúncio dos Profetas e do próprio testemunho de

Pentecostes.

 

Objeção 2: Em At 2,13 o texto parece indicar também a existência da glossolalia (idioma sem sentido, ininteligível) por causa do comentário de  alguns que estavam presentes.

 

Resposta: Em At 2,13 lemos: “Outros, porém, escarnecendo, diziam: Estão todos embriagados de vinho doce“. Este versículo aparece logo após o texto sagrado testemunhar que os apóstolos e discípulos estavam falando na língua de outros povos, de tal forma que eram entendidos por eles (vs 1-12).

O próprio texto diz que por causa da solenidade de Pentecostes “achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu” (vs 5). Logo, seria totalmente normal que um judeu árabe não entendesse o que um dos apóstolos estava falando em grego, ainda mais sabendo que a língua deles era o aramaico. De outra forma, poderia um judeu grego estar ouvindo Tomé falando em sírio, sabendo que sua língua natal era o aramaico. Ora, quem iria pensar que aqueles homens simples e sem instrução estariam falando outros idiomas? Claro que achariam que estavam bêbados, e não sob a ação miraculosa do Espírito Santo.

 

Objeção 3: São Paulo em 1 Cor 14,1-4 reconhece existir um tipo de dom de línguas que é ininteligível aos homens que é usado para se falar somente a Deus.

 

Resposta: São Paulo não diz que o dom de línguas é ininteligível aos homens, mas que “ninguém o entende, pois fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito” (cf. 1Cor 14,2). Santo Tomás comentando este trecho ensinou:

Também é falar em língua o falar de visões somente, sem explicá-las. […] Mas o que só a Deus é falado, compreende-se que o próprio Deus fala. Pelo qual disse: Mas o Espírito de Deus fala mistérios, isto é, coisas ocultas (1Cor 14,2). Porque não sereis vós que falareis, senão o Espírito de vosso Pai é que falará em vós. (Mt10,20).” Logo, quando se fala a Deus em línguas, fala-se coisas misteriosas e não palavras sem sentido.

 

Objeção 4: São Paulo difere o dom de línguas das orações em línguas.

 

Resposta: O Apóstolo não difere o dom de línguas das orações em línguas. Na verdade a diferença que há é somente na sua aplicação, conforme nos ensina Santo Tomás comentando 1Cor 14,13-17: “Já mostra acima o Apóstolo a excelência do dom da profecia sobre o dom das línguas, com razões tomadas da parte da exortação, e agora demonstra o mesmo com razões tomadas da parte da oração, pois, em efeito, estas duas coisas, a oração e a exortação, às exercitamos com a língua. […] [S. Paulo] Disse que o dom de

línguas sem o dom da profecia carece de valor, e pelo mesmo, como o interpretar é próprio da profecia, que é mais excelente que aquele, o que fala em línguas desconhecidas ou estranhas, ou de ocultos mistérios, peça, é claro que a Deus, o dom de interpretar, ou seja, que lhe seja dada a graça de interpretar. Orai para que Deus nos  abra uma porta (Colos. 4,3).

 

[…] E a oração pública quando se ora frente ao povo e pelos demais; e em ambas as orações pode usar-se do dom das línguas e do dom da profecia. E se trata de demonstrar que em uma e outra oração vale mais o dom da profecia que o dom das línguas“. A oração em línguas não é um carisma diverso do dom de línguas, mas apenas uma aplicação deste último na oração. Note que S. Tomás também aplica o dom da profecia à oração. Caso contrário, teríamos também a oração em profecia. No entanto, o dom de línguas e o dom da profecia podem ser aplicados na exortação ou na oração.

 

Objeção 5: O dom de línguas é falar em línguas ininteligíveis, tanto que S. Paulo ensina que este dom é complementado por outro que interpreta sua mensagem.

 

Resposta: Quando Paulo fala que deve haver intérprete, a palavra para “intérprete” aqui (1 Cor. 12,10; 14,26-27) é “diermeneutes” (διερμηνευτς), que, no grego, refere-se à interpretação de um idioma.

Ainda, S. Tomás (conforme vimos na resposta à objeção 3) ensinou que o falar em línguas é também o falar coisas misteriosas, logo é preciso que tal mistério também seja explicado para que traga proveito a todos.

Objeção 6: Falar em línguas é o mesmo que falar na língua dos anjos.

 

Resposta: Essa objeção tem origem numa especulação indevida das seguintes palavras de S. Paulo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine” (1Cor 13,1).

 

S. Tomás de Aquino comentando 1Cor 13,1-3 nos ensina: “[…] Vejamos agora o que se entende por ‘língua dos anjos’, pois sendo a língua um membro do corpo, a cujo uso pertence o dom de língua, que às vezes se chama ‘língua’ – como se verá mais abaixo (capítulo XIV) – nem uma coisa nem outra parece ter a ver com os anjos, que não possuem membros. Pode-se dizer então que por ‘anjos’ deve-se entender os homens com ‘ofício de anjos’, isto é, os que anunciam as coisas divinas a outros homens, como diz Malaquias: ‘Nos lábios do sacerdote deve estar o depósito da ciência e de sua boca será aprendida a Lei, visto que ele é o anjo do Senhor dos exércitos’ (2,7), de maneira que, neste sentido, se diz: ‘se eu falasse as línguas de todos os homens ou a língua angélica’, ou seja,se falasse ‘como aqueles que ensinam os outros, não apenas os mestres das primeiras letras, mas também os doutores’.

 

Pode-se também entender o texto: ‘fazes com que teus anjos sejamcomo os ventos’ (Salmo 103), que os anjos incorpóreos, ainda sem língua material, a possuem por semelhança – podemos assim dizer – na força com que manifestam a outros o que guardam na mente

.

O doutor angélico nos ensina que falar na língua dos anjos é falar em termos mais elevados. É como se o Apóstolo tivesse dito : “ainda que eu falasse a língua dos simples e dos doutores”. S. Paulo refere-se ao nível do aprofundamento do anúncio e não a um pseudo-idioma dos anjos.

 

Objeção 7: São Paulo está se referindo ao dom de línguas quando fala em gemidos inefáveis na Carta aos Romanos.

 

Resposta: Se fosse verdade o Apóstolo teria abordado o tema em sua primeira carta aos coríntios, quando ensina exatamente sobre o dom de línguas.

 

A palavra usada por S. Paulo que foi traduzida por “gemidos” é “stenagmos” (στεναγμς). É também usada em At 7,34: “Considerei a aflição do meu povo no Egito, ouvi os seus gemidos (στεναγμς) e desci para livrá-los. Vem, pois, agora e eu te enviarei ao Egito“.

 

O termo “stenagmos” refere-se a manifestações do coração, como sofrimento, angústia, saudade etc. Emprego do termo grego não deixa dúvidas de que o Apóstolo estava falando das manifestações do coração humano, da linguagem própria que vem do coração.

Santo Tomás, comentando Rm 8,26 nos ensina: “E diz-se que esses gemidos são inexplicáveis, ou porque são por algo que é inexplicável, como o é a gloria celestial (as palavras inexplicáveis que não são dadas ao homem para se expressar: 2Co12,4); ou porque os próprios movimentos do coração não se podem explicar suficientemente, enquanto que procedem do Espírito Santo.”.

 

O que se expressa bela boca, mesmo que sejam palavras sem sentido, é exprimível, caso contrário não seriam expressas pela boca. Mas, o que vem do coração, isso sim é inexprimível. Em Rm 8,26 S. Paulo ensina que o Espírito Santo nos ajudará a rezar como se deve: com o coração e não somente com palavras (cf. Mt 15,8). Isso “porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém”.

Este socorro do Espírito Santo havia sido anunciado pelo Profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirarvos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36,26).

 

Comentários meus: do exposto até conclui-se que o balbuciar, ou seja, os gemidos inefáveis que acontece na RCC são válidos como  forma de oração que brota do coração. É uma maneira de orar com palavras inexplicáveis como em 2Cor 12,4 que se diz: “ foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir”. Mas essa maneira fantástica de rezar não é o dom das línguas.

 

Objeção 8: Santo Agostinho se refere a um dom de línguas com palavras sem sentido em seu comentário ao Salmo 32.

 

Resposta: No referido comentário ao Salmo 32 de Santo Agostinho, lemos:

 

[O Senhor] te dá um estilo para cantar. Não procures palavras como se pudesse explicar em que Deus se compraz. Canta ‘com júbilo’. Cantar bem a Deus é cantar com júbilo. O que quer dizer: cantar com júbilo? Entender, não poder explicar com palavras o que se canta no coração. Pois aqueles que cantam na colheita, na vinha, em algum trabalho pesado, começando a exultar de alegria por meio das palavras dos cânticos e estando repletos de tanta alegria que não podem exprimí-la, deixam as sílabas das palavras e emitem sons jubilosos.

 

 O júbilo é som significativo de que o coração está concebendo o indizível. E diante de quem é conveniente tal júbilo senão diante do Deus inefável? Inefável é aquilo de que é impossível falar. E se não podes falar e não deves calar, o que resta senão jubilar? O

coração rejubila sem palavras e a imensidão do gáudio não se limita a sílabas. ‘Cantai-lhe bem com júbilo’“.

 

Como vimos anteriormente Santo Agostinho ao falar do dom de línguas refere-se ao falar várias línguas (ver Cap. 2). Logicamente que este grande Santo e Doutor da Igreja não poderia estar se contradizendo agora. Cabe notar, que no comentário acima, ele não se refere ao dom de línguas, mas a um tipo de louvor a Deus muito especial, o louvor que brota das entranhas do nosso coração.

Além disto, Santo Tomás comentando 1Cor 14,13-17, explica que o dom de línguas se aplica somente à exortação e à oração (ver resposta àobjeção no. 4). Aqui Santo gostinho trata de louvor.

 

Comentários meus: Esse tipo de louvor muito especial que Santo Agostinho experimentou, pode ser comparado com a experiência atual que acontece na RCC. É um louvor que brota das entranhas, por isso o nosso coração palpita de alegria nesses momentos de júbilo. E se não podes falar e não deves calar, o que resta senão jubilar? É Isso que nós fazemos, quando falta as palavras para louvar, emitimos ruídos inexplicáveis. Mas recordo que este tipo de louvor não é o dom das línguas.

 

Concluo dizendo que os grupo de oração  da RCC devem continuar orando dessa maneira especial. Mas que comece a ensinar que uma coisa é dom das línguas e outra é a oração que brota do coração, o nosso famoso “chandara cantara”.

REZEMOS IRMÃOS PARA QUE DEUS CONTINUE ABENÇOANDO A NOSSA AMADA RCC.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: