Publicado por: marcospauloteixeira | Janeiro 31, 2009

A Igreja e o Desenvolvimento da Ciência no Ocidente (séculos I – XVII): Algumas Considerações

A Igreja e o Desenvolvimento da Ciência no Ocidente (séculos I – XVII): Algumas Considerações

Introdução

Não é incomum deparar-se com a afirmação de que a Igreja coibiu o desenvolvimento da ciência* em eras passadas, se baseando em uma fé dogmática que prescindia de qualquer operação racional, e condenou aqueles que se posicionavam de maneira aparentemente contrária às concepções difundidas no meio eclesiástico. Opondo-se a esta visão, este artigo traz algumas considerações sobre a Igreja e sua relação com a ciência em alguns períodos históricos.

* O conceito moderno de ciência apresenta algumas divergência em relação à produção do conhecimento na Idade Média. No entanto, para fins de análise adotei o termo para ambas as épocas com o intuito de se pensar sobre o desenvolvimento intelectual.

A produção do conhecimento ao longo da História

Desde os primeiros séculos da Igreja, o uso da razão acompanhou a pregação cristã. Observando-se o discurso de Paulo, os apologistas dos primeiros séculos, os padres da Igreja, a Escolástica, os Jesuítas…, percebe-se que a fé cristã nunca desprezou a produção do conhecimento. S. Agostinho, procurando resgatar a dignidade da razão na busca da verdade – desacreditada por correntes filosóficas céticas presentes em seu tempo – afirmava que este dado é assegurado pela fé. O intelecto humano não poderia sozinho ser o avalista do conhecimento, pois a verdade é eterna (Abrão, 1999, p. 98-99). Assim, ao mesmo tempo que esta procura se depara com a fé em Deus, é por ela que se pode resgatar a dignidade da razão: “Compreender para crer, crer para compreender”, escreve o filósofo (Citado por Abrão, 1999, p. 99). Contrariamente a idéia de Tertuliano, que dizia crer por ser absurdo (Abrão, 1999, p. 99), Agostinho procurava reabilitar a razão diante da fé. Já para S. Tomás de Aquino, a razão natural pode, na observação dos dados sensíveis, chegar ao conhecimento da verdade, ou seja, de Deus. Assim, não há contradição entre revelação e razão, ambas são meios diferentes pelos quais se manifesta a mesma e única verdade (Idem, p. 116).

No século V, com a queda do Império Romano no Ocidente, estabelecem-se os novos reinos bárbaro-romanos desde a Península Ibérica até a Península Itálica. O esvaziamento das cidades e o crescimento da vida camponesa são fenômenos que se intensificam durante essa mudança. Diante desta conjuntura, era necessário tomar iniciativas que visassem a preservação da herança cultural que a sociedade greco-romana representava. Sob o domínio de Teodorico, rei dos ostrogodos, homens como Boécio – que se utilizou das categorias da filosofia grega para propor a fé cristã, além de escrever manuais de aritmética, de geometria, de música e de astronomia – e Cassiodoro – que após abandonar a vida pública, concebeu a idéia de confiar aos monges a tarefa de recuperar, conservar e transmitir à posteridade o imenso patrimônio cultural dos antigos – eram responsáveis pela administração civil.

A Igreja foi a principal instituição educacional da Idade Média. No século VI, São Cesário de Arles já expunha no Concílio de Vaison (529) a necessidade de criar escolas no campo; e os bispos se dedicaram a isso. No Império Carolíngio, a reforma educacional foi influenciada por Alcuíno, um acadêmico e teólogo anglo-saxão que se tornou diretor da Escola Palacial. Sob o governo de Carlos Magno, além de serem promulgados decretos que promoviam elementos para o enriquecimento da cultura clerical, um esquema para a universalização do ensino elementar foi criado. Uma lei do ano de 802 dizia: “todos devem enviar seu filho para o estudo literário, e a criança deve permanecer na escola com toda diligência até o momento em que ela deva tornar-se bem instruída no aprendizado” (“everyone should send his son to study letters, and that the child should remain at school with all diligence until he should become well instructed in learning” – Catholic Encyclopedia). O III Concílio de Latrão (1179), ordenou ao clero que abrisse escolas por toda a parte para as crianças, gratuitamente, obrigando a todas as dioceses terem ao menos uma. Também foi aprovado o cânon que ordenava que em todas as igrejas catedrais se provessem os rendimentos necessários para que um mestre pudesse ensinar gratuitamente os clérigos e os alunos pobres.

Os níveis escolares se dividiam em primário, secundário e superior. No primeiro, estavam as escolas paroquiais. Depois, havia as escolas das catedrais, as escolas monásticas e as escolas capitulares. No ensino superior, as Universidades desempenharam papel capital para o desenvolvimento intelectual. Surgidas dos centros docentes que estavam sob a proteção dos Papas e reis católicos, as Universidades tinham a capacidade de oferecer estudos em várias disciplinas e de outorgar títulos reconhecidos em toda a cristandade, graças ao seu grau pontifício. A universidade foi um fenômeno totalmente novo na história.

Na baixa Idade Média, o método escolástico baseado na quaestio – levantamento de um problema; disputatio – confronto de argumentos; e conclusio – posicionamento do pensador – traria uma verdadeira renovação intelectual já que fomentava a busca de novas interrogações e provas. No século XIII, obras de Aristóteles chegam ao Ocidente através dos árabes. Sua filosofia natural iria influenciar novos pensadores cristãos e assim dar novas perspectivas à ciência medieval. Entre aqueles que promoveram novos estudos científicos, neste sentido, pode-se aludir a Santo Alberto Magno – autoridade em física, geografia, astronomia, dentre outras áreas – que no seu tratado sobre as plantas afirmou: Experimentum solum certificat in talibus (A experimentação é o único guia seguro nessas investigações) (Catholic Encyclopedia). Destaca-se, também, Nicole Oresme, filósofo, economista, matemático e físico , autor das obras “Traité de la sphère” e “Traité du ciel et du monde”. Nesta ultima, o pensador afirma que a experiência sensível não pode determinar se é a Terra ou o céu que se move, suscitando a teoria da translação da Terra antes de Copérnico (Catholic Encyclopedia). Junto com Jean Buriman, Oresme também formulou asserções acerca da teoria do impetus, cujo elo de ligação com a dinâmica inercial seria fornecido posteriormente por Galileu. Todos estes homens são frutos da ação intelectual da Igreja.

Na Idade Moderna, merece destaque a ação dos membros da Companhia de Jesus no desenvolvimento científico. Segundo Jonathan Wright:

“…sugestões de que os jesuítas não ofereceram nada para o estoque do conhecimento humano eram obviamente falsas. Contribuíram para o desenvolvimento do relógio de pêndulo, dos pantógrafos, barômetros, telescópios e microscópios refletores e para o desenvolvimento de campos científicos tão variados quanto o magnetismo, a ótica e a eletricidade” (WRIGHT, 2006, p. 198).

Também fizeram novas descobertas espaciais, teorizaram sobre a influência da lua nas marés, sobre a circulação sangüínea e muito mais (Idem, p. 198).

Jean Hébrard destaca que a Igreja Católica tridentina incentivou de tal forma as instituições escolares, que seria impossível reconstruir uma história da cultura escrita sem encarar as modalidades da sua escolarização (Citado por FARIA, p. 6). A escrita ganhou um papel inédito já que a partir do século XVI, com a divisão da cristandade, os conflitos dogmáticos estavam presentes em toda sociedade e, portanto, era necessária a instrução sobre as verdades da fé fixando a “letra” da doutrina. Nesse contexto, a Companhia de Jesus passa a assumir os encargos da instrução no âmbito de Trento.

No início, os Colégios Jesuítas se destinavam aos membros em formação. Mais tarde, o ensino foi alargado a estudantes não religiosos o que contribuiu para a expansão das instituições de ensino jesuíticas pela Europa, América e Ásia.

Ignácio José Veríssimo sublinha que, no Brasil colonial, a metrópole abandonou o cuidado com a instrução deixando-a sob responsabilidade dos jesuítas. Dessa forma, a massa dos livros e instrumentos de ensino estavam nas mãos dos jesuítas, assim como o corpo de professores (VERÍSSIMO, p. 378). À época do Marques de Pombal, os jesuítas possuíam 17 estabelecimentos de ensino espalhados por todo o Brasil.

E o caso Galileu?

Para se entender a complexidade do processo de são necessários alguns esclarecimentos teóricos sobre a ciência de sua época. O sistema heliocêntrico, defendido por Aristarco de Samos (século III a.C.), não gozava de extensa credibilidade entre os pensadores pré-modernos principalmente por dois argumentos: primeiramente, baseando-se nos conhecimentos da época, advindos da observação natural, acreditava-se que se a Terra girasse em torno de si, deveria haver um movimento relativo terra-ar e, portanto, para quem está parado na superfície da Terra, um vento com a mesma velocidade; além disso, outro argumento inferia que se a Terra girasse em torno de si, quando uma pessoa lançasse uma pedra verticalmente para o alto ela cairia em um ponto afastado de seu lançamento. Mesmo assim, a obra de Copérnico seguiu sendo difundida e foi acolhida pelo Papa Paulo III.

Galileu passou a defender as propostas de Copérnico, sendo elogiado por alguns pensadores Jesuítas (Clavius, Griemberger e outros) e recebido pelo Papa Paulo V em audiência particular. Até então, não se levantaram questões sobre a fidelidade de Galileu por parte de Roma, deixando-se a discussão no campo especulativo. No entanto, para se defender daqueles que eram contrários à sua tese, e usavam passagens bíblicas para fundamentar seus pensamentos, Galileu faz considerações sobre a interpretação das escrituras. Afirmando que as mesmas não tratam da verdade em questões que não as de salvação, seus pensamentos, considerados duvidosos naquela época, pareciam inovações inspiradas pelo princípio do “livre exame da Biblia” propugnado por Lutero. Por esse motivo, em 1616 o Santo Ofício ordenou que Galileu cessasse de defender suas teses. Essa restrição, surge como uma medida preventiva e não doutrinal.

Em novembro de 1618 apareceram três cometas na Europa, provocando novas discussões científicas. Entre 1624 e 1630 Galileu escreve um novo livro, “Diálogo sobre os dois Sistemas Máximos de Mundo, o Ptolomaico (Sistema no qual se defendia o Geocentrismo) e o Copernicano”, comunicando ao Papa Urbano VIII, que o aconselha a tratar o sistema de Copérnico como hipótese. Galileu, no entanto, não faz as modificações necessárias para adquirir o “Imprimatur” e publica o livro tratando o sistema de Copérnico como verdade no corpo da obra. Diante disso, Galileu é condenado à três anos de prisão que depois é comutada em prisão domiciliar. Morre em 08/01/1642, assistido por um clérigo. Mas uma vez percebe-se que sua condenação tem caráter disciplinar. Em 1623, o Papa Urbano VIII afirmou que a doutrina do heliocentrismo jamais fora condenada como herética (BETENCOURT).

Conclusão

Pode-se perceber, que a Igreja não coibiu a pesquisa científica, mas, ao contrário, era a sua principal promotora. No entanto, a sociedade medieval, e mesmo moderna, concebia toda ação em função de uma cosmologia baseada na fé. A Igreja, reduto de cultura, forneceu as bases dos Estados medievais, cujos reis eram investidos por clérigos, enquanto grande parte das instituições do poder público também estavam relacionadas ou dependiam dos meios eclesiásticos. O historiador Jacques Le Goff, afirma que havia uma verdadeira fusão entre a comunidade religiosa e a comunidade nacional ou social (Citado por Gonzaga, p. 109). Nesse sentido, pode-se compreender a preocupação das instâncias de poder -tanto religiosas como políticas – em coibir teses contrárias à fé universal que deu origem a Civilização Ocidental. O historiador francês Lucien Febvre – um dos fundadores da escola das Annales, que revolucionou a historiografia ocidental no início do século XX – afirmou que:

“A psicologia retrospectiva ou psicologia histórica tem a vocação de recuperar os quadros mentais dos períodos do passado, romper com a concepção de uma natureza humana atemporal, imutável, assim como todo anacronismo, ou seja, a tendência natural de transpor nossas próprias categorias de pensamento, de sentimento, de linguagem para as sociedades nas quais elas não têm significado ou o mesmo significado” (Citado por Matos, p. 168).

Seguindo esse conceito teórico, infere-se que não é conveniente transpor uma ideologia de liberdade de expressão para uma sociedade que tem a religião como o centro da existência e concebe a mesma como una e universal. O Ocidente medieval, e os Estados modernos católicos, são fundados e têm como essência a mesma fé católica. Na Idade Média, essa civilização era conhecida como Christianitas (Cristandade). Toda divergência é não só uma ferida ao corpo espiritual como também ao corpo social – e então, o braço secular era quem agia. Isso, porém, não impedia a produção de conhecimento que, como foi exposto, era incentivada, cuidando-se para que aparentes divergências em relação à doutrina fossem analisadas diligentemente. Nem constituiu-se uma contradição entre fé ciência, pois como pode-se observar, afirmava-se a complementariedade de ambas: Fides, si non cogitatur, nulla est (A fé, sem a razão, é nula), disse Santo Agostinho (Citado por Aquino, 2008, p. 131).

 

Referências

ABRÃO, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999

AQUINO, Felipe. Uma História que não é Contada. Lorena: Cléofas, 2008

BETTENCOURT, Estevão. O Processo de Galileu. Disponível em: Editora Cléofas. Acesso em: 04:10:2008

BLESSMANN, Joaquim. Ainda o Caso Galileu. Disponível em: Editora Cléofas. Acesso em: 04:10:2008

FARIA, Marcos Roberto de. Os jesuítas e a contra-reforma: contribuições para história da leitura no Brasil-colônia. Dispnível em: Associação de Leitura do Brasil. Acesso em 27/11/08

GONZAGA, João Bernadino. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993

http://www.catholic.org/encyclopedia/view.php?id=410

http://www.catholic.org/encyclopedia/view.php?id=428

http://www.catholic.org/encyclopedia/view.php?id=8772

LE GOFF, Jacques. A Civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1983.

MATOS, Júlia Silveira. Lucien Febvre e a Quádrupla Herança: Aspectos Teóricos do Campo Biográfico . Disponível em: Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas. Acesso em 04. 10. 2008

SOUSA, Jesus Maria. Os Jesuítas e a Ratio Studiorum As raízes da formação de professores na Madeira. Disponível em: Universidade da Madeira. Acesso em: 30/11/08

VERÍSSIMO, Ignácio José. Pombal, Jesuítas e o Brasil. Rio de Janeiro: SMG, 1961

WRIGHT, Jonathan. Os Jesuítas: Missões, Mitos e Histórias. Rio de Janeiro: Relume Duramará, 2006

ZYBERSTAJN, Arden. A Evolução das Concepções sobre Força e movimento. Disponível em: Departamento de Física da UFSC. Acesso em: 04:10:2008

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CARVALHO, Tarcísio Amorim. Apostolado Sociedade Católica: A Igreja e o Desenvolvimento da Ciência no Ocidente (séculos I – XVII): Algumas Considerações. Disponível em http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=438
Desde 27/12/2008


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