Publicado por: marcospauloteixeira | Maio 15, 2010

O fundamentalismo: a Bíblia como receita de bolo – I

O fundamentalismo: a Bíblia como receita de bolo – I

Por Dom Henrique Soares

 Já há alguns anos temos presenciado no seio dos cristãos um amor renovado à Palavra de Deus; uma verdadeira sede de conhecer as Escrituras Sagradas. Deus seja louvado por tudo isso! O problema é o modo que muitas vezes se tem de ler e interpretar a Escritura; modo este que termina mais atrapalhando que ajudando, mais afastando que aproximando da verdade, mais confundindo que esclarecendo. É este o caso da leitura fundamentalista da Escritura, que vamos abordar no presente artigo.

            O fundamentalismo é um modo literal de ler a Bíblia: lê-la ao pé da letra, como está lá! Para os fundamentalistas as Sagradas Escrituras, por serem inspiradas por Deus, não contêm erros ou evoluções de modo algum. Tudo nela deve ser interpretado de modo estritamente literal! Assim, o mundo foi criado em seis dias, a humanidade toda veio de um casal só – Adão e Eva, o dilúvio aconteceu tal e qual o Gênesis afirma, Sodoma e Gomorra pereceram tal qual está na Escritura, o sol e a lua pararam por ordem de Josué, Jonas permaneceu três dias no ventre de um peixe… e por aí a fora.

            A mentalidade fundamentalista surgiu entre grupos protestantes norte-americanos do início deste século, seguidos por alguns grupos europeus. Entre nós tal mentalidade encontra-se sobretudo na grande maioria das denominações protestantes. Estes grupos sentem-se muito seguros de si porque lêem a Bíblia assim, literalmente! Só que tal segurança é absolutamente falsa. E isto por vários motivos: 

1) A Bíblia interpretada de modo literal torna-se completamente contrária a muitas das descobertas da ciência atual, levando o crente a negar a ciência e a ciência a zombar da fé. Ora, o Deus que se revelou e nos convida à fé é o mesmo Deus que deu ao homem a inteligência para descobrir e pesquisar cientificamente! Como ignorar hoje a teoria de Charles Darwin, segundo a qual as espécies – inclusive a humana – evoluem? Como negar as descobertas arqueológicas que corrigem com razão muitas das afirmações da Bíblia? Como ignorar as descobertas dos astrofísicos sobre a origem e evolução do universo? Seria loucura e pura insensatez meter a cabeça no buraco e ignorar solenemente tudo isto. É como se religião fosse coisa para analfabeto e ignorante! Esta atitude fundamentalista é um assassinato à fé cristã: seria afirmar que num mundo científico não haveria lugar para Deus: ou um ou outro, ou Deus ou a ciência! Ora, tal visão nega e afronta a própria Bíblia: “Façamos o homem… que ele domine sobre os peixes do mar e as aves do céu…” (Gn 1,26); “O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo” (Gn 2,15). A ciência não é obra do diabo, mas fruto da inteligência que Deus deu ao homem para progredir e cuidar do mundo por ele criado! 

2) A Escritura, se tomada literalmente, sem o auxílio da exegese, apresenta contradições insuperáveis, que terminam por desmoralizá-la completamente. Basta citar alguns exemplos: em Gn 1,26-27 Deus criou o homem e a mulher de uma só vez, e isso depois de ter criado todos os animais; já em Gn 2,7-8.18-23 Deus criou primeiro o varão, depois as plantas, depois os animais e, somente depois, a mulher, da costela do homem! Outro exemplo: em Gn 1,26-27 Deus cria o homem pela sua palavra; em Gn 2,7 Deus cria o homem plasmando-o da argila da terra! E agora? Outro exemplo: na história de José está dito que os mercadores a quem José foi vendido eram ismaelitas (cf. Gn 37, 25); mais adiante, está dito que eram madianitas (cf. Gn 37,28). Em Gn 6,6 está dito que Deus se arrependeu de ter criado o homem; em 1Sm 15,29 diz-se que Deus não se arrepende nunca! Mateus diz que Jesus pronunciou as bem-aventuranças numa montanha (cf. Mt 5,1); Lucas diz o contrário: Jesus pronunciou as bem-aventuranças numa planície (cf. Lc 6,17-23); Mateus afirma que Jesus subiu aos céus na Galiléia (cf. Mt 28,16ss); Lucas garante que foi nos arredores de Jerusalém, em Betânia e, portanto, na Judéia (cf. Lc 24,50ss). Marcos afirma que era um só o cego de Jericó (cf. Mc 10,46ss); Mt 20,29ss afirma que eram dois. Estou citando apenas alguns exemplos. Poderia citar muitíssimos, no Antigo e no Novo Testamento, que mostram contradições entre vários textos bíblicos. Estaria a Bíblia errada? Não! Errados estão os que a lêem literalmente, como se ela fosse uma crônica histórica! A Bíblia não mente: ela traz a verdade de nossa salvação!

3) De acordo com a própria Escritura, Deus nunca age sufocando o ser humano. Isto vale também para a inspiração. Os autores dos livros sagrados não eram simples instrumentos passivos nas mãos de Deus. Não se deve pensar a inspiração como uma psicografia, na qual o escritor simplesmente copia o que lhe foi ditado. Nada disso! Quando o autor sagrado escreve, muitas vezes nem sabe que está escrevendo um livro inspirado, livro que fará parte da Bíblia. Assim, ele escreve com sua mentalidade, seu estilo literário, suas características. Por exemplo: o estilo do Evangelho de Marcos é grosseiro e o seu modo de escrever o grego é muito feio e ruim. Já o estilo de São Lucas e São João é muito belo. Cada autor tem suas idéias próprias, seu modo de ver e avaliar a situação em que viveu. Além do mais, ninguém escreve um livro (nem os livros da Bíblia) a toa. Para compreender bem um livro da Escritura é necessário saber ao menos um pouco quem escreveu, para quem e com que intenção. Repito: quem escreveu o livro não sabia que estava escrevendo um livro inspirado! Então, quem é que diz que tal livro é inspirado? Lembre-se do artigo sobre o cânon! A única instância que pode afirmar se um livro é ou não inspirado por Deus é a Igreja, sob a guia dos seus legítimos pastores! 

4) O fundamentalismo toma o texto bíblico sem observar como cada livro se formou. O resultado é uma leitura totalmente deturpada! Por exemplo: a revelação não foi feita de uma só vez, mas foi acontecendo aos poucos, na história do povo de Israel. Assim, há na própria Bíblia uma evolução. Eis alguns exemplos: (a) a questão da vida após a morte: no começo Israel pensava que, com a morte, todos ficariam para sempre no sheol, num sono eterno e sem nenhuma esperança (cf. Is 38,9-11.18; Sl 6,6; Sl 88,11-13); somente a partir do século IV antes de Cristo, Israel começou a esperar na ressurreição (cf. 2Mc 7,8-9.11.14.22-23.27-29; Dn 12,2-3). Então, há livros na Bíblia que esperam na ressurreição e livros que não esperam! (b) A própria questão do Deus único evoluiu na Bíblia: no começo Israel pensava que existiam muitos deuses, mas somente Javé era o Deus de Israel; Javé era maior do que os outros deuses (pensava-se assim: esses deuses existiam, mas Israel somente servirá a Javé). Os livros mais antigos da Bíblia têm essa mentalidade (cf. Ex 20,1-3; Sl 95,3; Gn 31,53; Nm 21,29; Jz 11,23s; 1Sm 26,19; Sl 89,6-9); já os livros escritos pela época do Exílio de Babilônia deixam claro que não há outros deuses: só existe Javé (cf. Is 44,6-8; Jr 2,10s). (c) Mudou também o modo de a Bíblia ver a monarquia: primeiro era contra (cf. 1Sm 8,1-9; 10,17-24), depois passou a ser a favor (cf. 9,1 – 10,16; Sl 21,1-2). Bastam estes exemplos para fazer compreender que não se pode entender bem a Escritura simplesmente interpretando tudo ao pé da letra, sem olhar o contexto em que cada livro foi escrito! 

5) Outro problema sério é o do gênero literário: ninguém lê uma poesia como quem lê um jornal; ninguém lê um romance como quem lê um manual de eletrodoméstico. Em outras palavras: cada livro tem um gênero literário e se não se estiver atento a isto pode-se cometer erros grosseiros. Assim, por exemplo, os salmos são poesia; Gn 1-12 são como parábolas sapienciais; Jó é um longo poema como a nossa literatura de cordel; Êxodo é uma epopéia; Isaías é uma coleção de oráculos; Cântico dos Cânticos é uma coleção de poemas de amor; Ester e Jonas são pequenas novelas; Daniel é um livretinho apocalíptico; Romanos é uma carta. Para ser bem interpretada, cada obra desta deve ser lida dentro do seu estilo literário… senão o leitor vai trair a intenção do autor do livro, traindo, assim, a revelação de Deus! 

6) Uma outra coisa: estes fundamentalistas pensam que estão interpretando a Bíblia ao pé da letra mas, na verdade, a estão interpretando de acordo com suas pré-compreensões, seus “pré-conceitos”. Estão fazendo a Bíblia dizer o que eles querem que ela diga e não o que ela quer dizer! Eis alguns exemplos: por que os protestantes não aceitam a afirmação de Jesus: “Isto é o meu corpo; isto é o meu sangue” (Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20)? Jesus foi tão claro: “A minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue e verdadeiramente bebida”(Jo 6,55)! Por que não aceitam Pedro como chefe da Igreja, se Jesus diz claramente: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18)? A resposta é simples: quando eles lêem e interpretam a Bíblia já levam o preconceito, isto é uma pré-compreensão, que faz com que eles entendam a Bíblia como eles acham que devem entender! Então, cuidado: é somente na aparência que os fundamentalistas parecem ser mais fiéis à Bíblia: na verdade, apegando-se à letra, traem o espírito! 

            Bom, por agora basta! No próximo artigo vou explicar como fazer para ler e interpretar a Bíblia corretamente, sem cair nos erros dos fundamentalistas! A Bíblia é para todos, não somente para especialistas; mas há um modo inteligente e um modo bobo de ler a Palavra de Deus! O modo fundamentalista é bobo!…

 Leia também:

O fundamentalismo: a Bíblia como receita de bolo – II : http://www.domhenrique.com.br/index.php/estudos-biblicos/339-o-fundamentalismo-a-biblia-como-receita-de-bolo–ii

 O fundamentalismo: a Bíblia como receita de bolo – III – http://www.domhenrique.com.br/index.php/estudos-biblicos/338-o-fundamentalismo-a-biblia-como-receita-de-bolo–iii

 O fundamentalismo: a Bíblia como receita de bolo – IV – http://www.domhenrique.com.br/index.php/estudos-biblicos/337-o-fundamentalismo-a-biblia-como-receita-de-bolo–iv


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