Publicado por: marcospauloteixeira | Dezembro 21, 2011

JESUS NASCEU NO DIA 25 DE DEZEMBRO?

A DATA DO NATAL

Por William J. Tighe

William J. Tighe é corresponsável pela “Touchstone” e professor adjunto na Universidade de Muhlenberg.

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Calculando-se a data do Natal conclui-se que não foram os cristãos que adotaram uma festa pagã, mas justamente o inverso…

Muitos cristãos crêem que o Cristianismo celebra o nascimento de Cristo no dia 25 de dezembro porque os Padres da Igreja se apropriaram da data de uma festa pagã. Quase ninguém dá importância a este fato, exceto alguns grupos evangélicos minoritários de origem norte-americana, que parecem interpretar que isso converte o Natal em uma festa pagã. No entanto, resta interessante saber que a opção pelo 25 de dezembro é resultado das tentativas efetuadas pelos primeiros cristãos em investigar a data de nascimento de Jesus baseando-se em cálculos do calendário que nada tinham a ver com as festividades pagãs. Ao contrário, a festa pagã do “Nascimento do Sol Invicto” foi instituída pelo imperador romano Aurélio para ser comemorada em 25 de dezembro de 274, quase com toda certeza como tentativa de criar a alternativa pagã para uma data que já gozava de certa importância para os cristãos romanos. Com efeito, “as origens pagãs do Natal” são um mito sem fundamento histórico.            

UM ERRO

A idéia de que a data foi apropriada dos pagãos remonta a dois estudiosos de fins do século XVII e princípios do século XVIII. Paul Ernst Jablonski, um protestante alemão, pretendia demonstrar que a celebração do nascimento de Cristo em 25 de dezembro era uma das muitas “paganizações” do Cristianismo que a Igreja do século IV havia adotado, como uma das muitas “degenerações” que haviam transformado o puro Cristianismo apostólico em Catolicismo. Dom Jean Hardouin, um monge beneditino, tentou demonstrar que a Igreja Católica tinha adotado festividades pagãs para fins cristãos sem, porém, paganizar o Evangelho. No calendário juliano, criado no ano 45 a.C., sob Júlio César, o solstício de inverno caía em 25 de dezembro e, portanto, para Jablonski e Hardouin parecia-lhes evidente que essa data tinha que conter obrigatoriamente um significado pagão antes de ter sido cristianizada. Porém, na verdade, a data não tinha nenhum sentido religioso no calendário pagão em tempos anteriores a Aurélio e tampouco o culto ao sol desempenhava um papel importante em Roma antes da sua chegada. 

Havia dois templos dedicados ao sol em Roma. Um deles, mantido pelo clã do qual Aurélio nasceu ou foi adotado, celebrava sua festa de consagração em 9 de agosto; e o outro, em 28 de agosto. No entanto, os dois cultos caíram em desuso no século II, quando os cultos solares orientais, como o Mitraísmo, começaram a ganhar adeptos em Roma. Como quer que seja, nenhum destes cultos, antigos ou novos, tinham festividades relacionadas com solstícios ou equinócios. O que ocorreu verdadeiramente foi que Aurélio, que governou do ano 270 até seu assassinato em 275, era hostil para com o Cristianismo, estando documentado que promoveu o estabelecimento da festa do “Natal do Sol Invicto” como um método de unificar os diversos cultos pagãos do Império Romano em torno de uma comemoração do “renascimento” anual do sol. [Aurélio] liderava um Império que avançava para o colapso ante as agitações internas, as rebeliões das províncias, a decadência econômica e os repetidos ataques das tribos germânicas pelo norte e do Império Persa pelo leste.

Ao criar essa nova festa, sua intenção era a de que o dia 25 (quando a luz dia começava a avançar e reduzir as trevas) fosse um símbolo do aguardado “renascimento” ou eterno rejuvenescimento do Império Romano, que fora o resultado da perseverança na adoração dos deuses cuja tutela – segundo acreditavam os romanos – tinha conduzido Roma à glória e ao governo de todo o mundo. E se era possível acabar com a celebração cristã, melhor ainda…

UMA CONSEQUÊNCIA

É certo que a primeira prova de uma celebração cristã em 25 de dezembro como data do Natal do Senhor encontra-se em Roma, alguns anos depois de Aurélio, no ano 336 d.C.; porém, existem provas oriundas do leste grego e do oeste latino, onde os cristãos tentavam averiguar a data do nascimento de Cristo muito antes de passarem a celebrá-la de forma litúrgica, inclusive nos séculos II e III. De fato, as provas indicam que a atribuição da data de 25 de dezembro foi consequência das tentativas de se determinar quando deveriam celebrar sua morte e ressurreição.

Mas como ocorreu tudo isto? Parece existir uma contradição na data da morte do Senhor nos Evangelhos Sinóticos e no Evangelho de João. Os Sinóticos a situam na Páscoa dos judeus (após a Última Ceia na noite anterior) enquanto que João a descreve na véspera da Páscoa, no momento em que os cordeiros eram sacrificados no Templo de Jerusalém para o ágape que tinha lugar após o nascimento do sol nesse mesmo dia. A solução para esta questão implica responder à pergunta se a Santa Ceia foi um ágape pascal ou uma ceia que ocorreu um dia antes, o que evidentemente não estudaremos aqui. Basta dizer que a Igreja primitiva seguiu João e não os Sinóticos e que, portanto, acreditou que a morte de Cristo ocorreu no dia 14 de Nisan, de acordo com o calendário lunar judaico. Por certo, os estudiosos modernos concordam que a morte de Cristo pode ter ocorrido no ano 30 ou no ano 33 d.C., já que estes são os únicos anos dessa época

em qua a vigília da Páscoa poderia cair numa sexta-feira. As possibilidades são, portanto, o 7 de abril do ano 30 ou o 3 de abril de 33.

Porém, visto que a Igreja primitiva foi separada forçosamente do Judaísmo, adentrou em um mundo de calendários diferentes e teve que instaurar seus próprios momentos para celebrar a Paixão do Senhor, em parte também para se tornar independente dos cálculos rabínicos para a data da Páscoa. Por outro lado, como o calendário judaico era um calendário lunar que constava de 12 meses de 30 dias cada, de anos em anos era necessário acrescentar, por decreto do Sinédrio, um 13º mês, para manter o calendário sincronizado com os equinócios e solstícios, bem como para evitar que as estações fossem se “deslocando” para meses inapropriados.

Em paralelo à dificuldade que os cristãos deveriam ter para investigar (ou talvez em estar bem informados) sobre as datas pascais de um determinado ano, se viessem a seguir um calendário lunar projetado por eles mesmos poderia lhes atrair problemas tanto da parte dos judeus quanto dos pagãos, bem como entrar em debates sem fim entre eles próprios. O século II presenciou grandes debates sobre se a Páscoa precisava cair sempre num domingo ou em qualquer dia da semana, dois dias depois do 14 de Nisan/Artemísion e seguir um calendário lunar somente poderia agravar estes problemas.

Tais divergências eram interpretadas de diferentes maneiras entre os cristãos gregos da parte oriental do Império e os cristãos latinos da parte ocidental do mesmo. Parece que os cristãos-gregos quiseram encontrar uma data equivalente ao 14 de Nisan em seu próprio calendário solar e, visto que Nisan era o mês em que ocorria o equinócio de primavera, elegeram o dia 14 de Artemísion, o mês em que o equinócio de primavera caía invariavelmente em seu próprio calendário. Por volta do ano 300 d.C., o calendário grego foi suplantado pelo calendário romano e como as datas de início e fim dos meses nestes dois sistemas não coincidiam, o dia 14 de Artemísion se converteu em 6 de abril.

Não obstante, parece que os cristãos latinos do século II em Roma e no norte da África queriam estabelecer a data histórica da morte de Jesus. Na época de Tertuliano (~155-220 d.C.) tinham concluído que morreu na sexta-feira, 25 de março do ano 29 (como observação, devo fazer constar que isto é impossível: o dia 25 de março do ano 29 não caiu na sexta-feira e a véspera da Páscoa judaica do ano 29 d.C. não caiu nem em 25 de março e nem sequer no mês de março).

IDADE INTEGRAL

Portanto no leste temos o dia 6 de abril e, no oeste, o dia 25 de março. Tendo chegado a este ponto, devemos introduzir uma crença que parece ter se propagado no Judaísmo do tempo de Jesus; porém, como não aparece na Bíblia, não é muito conhecida dos cristãos. Trata-se da “idade integral” dos grandes profetas judeus: a idéia de que os profetas de Israel morreram na mesma data em que se deu seu nascimento ou concepção.

Este conhecimento é fator-chave na hora de entender o porquê de alguns dos primeiros cristãos terem chegado à conclusão de que o dia 25 de dezembro foi a data em que nasceu Jesus Cristo. Os primeiros cristãos aplicaram esta idéia a Jesus, de modo que o 25 de março e o 6 de abril não eram apenas as supostas datas da morte de Jesus como também as de sua concepção ou nascimento. Existe alguma prova fugaz de que pelo menos alguns cristãos dos séculos I e II consideravam o 25 de março e o 6 de abril como a data de nascimento de Cristo, porém logo prevaleceu a indicação do 25 de março com a data da concepção de Cristo.

E é neste dia, comemorado quase que universalmente pelos cristãos como a Festa da Anunciação, quando o Arcanjo Gabriel levou a Boa Nova do Salvador à Virgem Maria, a qual consentiu que a Palavra de Deus (“Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, nascido do Pai antes de todos os séculos”) se encarnasse em seu ventre. Quanto dura uma gravidez? Nove meses! Se contarmos nove meses a partir de 25 de março teremos 25 de dezembro; se contarmos a partir de 6 de abril, teremos 6 de janeiro. O 25 de dezembro é Natal; o 6 de janeiro, a Epifania.

O Natal (25 de dezembro) é uma festa de origem cristã ocidental. Parece que em Constantinopla foi introduzido no anto 379 ou 380. De um sermão de São João Crisóstomo, que em sua época foi um renomado asceta e pregador na sua Antioquia nativa, parece que aí a festa foi celebrada pela primeira vez em 25 de dezembro de 386. A partir desses centros, se espalhou por todo o Oriente cristão, sendo adotado em Alexandria por volta de 432 e, em Jerusalém, um século depois (ou um pouco mais). Entre as Igrejas cristãs antigas, os armênios são os únicos que não o adotaram, celebrando até hoje o nascimento de Cristo, a adoração dos reis e o batismo em 6 de janeiro.

Por sua vez, as Igrejas ocidentais foram adotando gradualmente, para o 6 de janeiro, a celebração da Epifania oriental, sendo que Roma o fez entre 366 e 394. Porém, no Ocidente, esta festa se apresentava normalmente como a comemoração da visita dos Reis Magos ao Menino Jesus e, como tal, era uma festa importante, mas não uma das mais determinantes. Isto provocava um forte contraste com a posição da Igreja oriental, onde continua sendo a segunda festa mais importante da Igreja após a Páscoa. No Oriente, a Epifania é muito mais importante que o Natal. A razão disto é que nessa festa também se celebra o batismo de Cristo no Jordão o momento em que a voz do Pai e a descida do Espírito Santo manifestaram pela primeira vez aos mortais a divindade do Cristo Encarnado e a Trindade das Três Pessoas em um só Deus.    

UMA FESTA CRISTÃ

Assim, pois, parece que o 25 de dezembro como data do nascimento de Cristo não se deve em absoluto às influências pagãs nas práticas da Igreja durante ou depois do tempo de Constantino. Não é possível provar que seja a data exata do nascimento de Cristo, porém surgiu estritamente dos esforços dos primeiros cristãos latinos para investigar a data histórica da morte de Cristo.

Ao contrário, a festa pagã instituída pelo imperador Aurélio para essa data, no ano 274, não apenas foi um esforço para usar o solstício de inverno com o objetivo de fazer uma declaração política, como ainda – com quase toda a certeza – foi uma tentativa de dar um sentido pagão para um data já importante para os cristãos romanos. Por sua vez, os cristãos puderam posteriormente tornar a adotar a festa do “Nascimento do Sol Invicto” para se referir, em memória do nascimento de Jesus, à ascensão do “Sol da Salvação” ou do “Sol da Justiça”.

Fonte: http://www.veritatis.com.br/article/5677


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